10/06/2026

Perto do coração selvagem

Na manhã mais ordinária enquanto o café esfriava e o tempo corria, minha cabeça parou por um segundo e decidiu: às vezes a vida é só.
e basta?
sim.
Sou só um animal alimentando os filhos.
Não quero mais entender as mazelas dos homens, quero viver no instante onde dura o infinito.

Nesses fins de dias gelados, o passado parece tão pequeno e o que está por vir deverá ser simples. O que recordo e sinto pulsa, apenas pulsa. Cru. Meus pés abrem os caminhos e lembro: nessa esquina você passou, essas árvores viram seus cabelos escuros, esses pássaros reconhecem seu rosto. E em mim ficou só a fome. Me dá a mão e o nome.

Passei meus bons anos esmiuçando o amor, sem perceber que fazendo isso, o diminuía. De modo que hoje sou devota a tudo que amo: não interrogo, apenas amo. E quando a noite difícil se vai, assim que amanhece estou lá mais uma vez, de joelhos, no meu altar de santos.

Me despedi da minha cidade natal. Agora meus dias são cinzas, úmidos. Sou um coração estrangeiro encontrando lares. O olhar de uma mãe no supermercado, os amantes que conversam muito próximos em um café, as mulheres com as pernas se tocando tímidas embaixo da mesa, uma moça que me desejou um bom dia, os olhos da minha filha sorrindo, meu grande amor chegando em casa mais um dia, os cachos do meu filho, ouvir a voz dos meus pais no telefone, voltar para casa após um longo dia de trabalho, imaginar seu último fio de cabelo virando a rua. Acordo mais cedo que a casa para beber café e escrever - porque gosto mesmo de desayunar em meio a entropia de cabelos esvoaçados pela cozinha, pés sem meias, adultos rindo. No fim Chesterton estava certo, e foi preciso muita coragem para abraçar uma vida comum. Você também estava - assim como sempre esteve sobre todas as coisas -, há tanto tempo te vejo vivendo a simplicidade da vida em família que sempre me entediou, mas não mais.

Os gêmeos são um barato, e eles têm uns olhos - olhos que já vi no espelho antes do mundo me arrebentar. Ancestralidade nova em folha, águas centenárias, mas recém paridas. Enfim a vida se confirma em mistério. 

Enquanto você não volta, observo Maria Teresa escalar. Sempre impulsiva e selvagem. Me estico no alpendre... Demoro o tempo que me permitem. Fazem meu café, abro as janelas e as portas todas as manhãs. Martín traz flores para dentro de casa. Sempre manso e profundo. O tempo passa muito rápido. A pequenez dos filhos fica só na lembrança. E eu lembro, lembro deles, de você, eu lembro de tudo.

O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

17/05/2024

Escreverás meu nome com todas as letras

com todas as datas,
e não serei eu.
Repetirás o que ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.
Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.
Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?

(C.M)

29/04/2024

manhãs de vento. pressinto surpresas, surpresas de mim. o mundo mudou intensamente. meu peito, meu rosto. a vida não é feita de ontens, o reino não é feito para os mornos. tudo que eu toco é meu para sempre. o que ficou pra trás nunca aconteceu. as pessoas foram apenas rostos; as memórias são apenas sonhos. estou apenas dentro de mim e me sinto uma gota d'água. não faço parte dos outros mas faço parte do rio. estar dentro de mim é muito vasto. continuo inalcançável. o meu andar aquático sobre a terra. a água é sagrada enquanto eu gesto. é com esse líquido que nutro o meu filho, que cresce. ele terá o nome de um pássaro. sou, afinal, um bioma fértil. e renasço. e renasço.